sábado, 13 de outubro de 2012

Nem Queira Saber...


O Carnaval


No início do ano, o Carnaval também dava um banho de beleza

Dois blocos, por volta de 1930, polarizavam as preferências dos foliões areia-branquenses: “Os Democratas e os Tenentes”, o primeiro coordenado pelos Gamas e o segundo, por Bastinho, cujo banjo no centro da orquestra, quando o bloco desfilava, eletrizava seus admiradores.
Esses dois blocos, como os que existiram anteriormente, inspiram-se na Sociedades Carnavalescas do Rio de Janeiro e foram trazidos para Areia Branca por Xixico Trajano e o velho Adolfo, segundo informações de Bastinho e Manoel Medeiros.
O primeiro bloco, na verdade, foi o dos “Fenianos”. Como a taxa cobrada dos seus associados fosse considerada por uma parcela deles, muito alta, um grupo de foliões formou uma dissidência e criou uma nova agremiação carnavalesca, “Os Gratuitos”.
Segundo Medeiros e Bastinhos, “Os Democratas” e “Os Tenentes” não foram muito além de 1934, quando ocorreu em Areia Branca, o assassinato de Chico Bianor.
Atualmente, apenas um tipo de grupo em Areia Branca, ainda defende as tradições do povo É a “Bicharada”, bloco carnavalesco, com feição sincrética, envolvendo personagens das danças folclóricas, - boi, burrinha - e figuras dos velhos carnavais areia-branquenses, as Macacas, herdeiras dos antigos ursos.
Há vários grupos muito autênticos, formados por gente do povo, preservando aquele padrão de excelência musical de antigos compositores da cidade, representados hoje na figura que já vai se tornando lendária de Chico da Velha
 Do Livro "Areia Branca - A Terra da Gente", de Deífilo Gurgel
      Os Democratas, carnaval de 1924

Relendo Eneida

Todo carnaval releio A História do Carnaval Carioca, de Eneida. Coisa assim meio compulsiva. Ou, se for dizer melhor, qualquer coisa assim movida pelo inconsciente por uma associação que não sei explicar. Isso me chega logo à lembrança os antigos carnavais da minha terra ou, mais precisamente, os carnavais dos idos de 40, 50. Areia Branca então ainda ostentando a fama, na boca dos vapozeiros, de um dos melhores carnavais do Brasil.
Não, não, nunca até hoje brinquei carnaval, não porque não goste, mas porque sempre fui barrado pelo meu jeito de ser, isto é, tenho acanhamento de aparecer diante dos olhares públicos. Feito coruja, escondo-me da luz. Também não saberia dizer se sou assim de nascimento, ou se assim me fez alguma razão que me ficou, lá pelos longes da infância, camuflada nos porões do meu inconsciente. Nem me interessa saber.
Os blocos carnavalescos da minha terra, guardadas as proporções, tinham a beleza sentimental dos blocos cariocas de antigamente descritos pela escritora paraense e, lendo-a, parece-me vê-los, de corpo presente, numa saudação aos de Areia Branca, o porto marítimo desconhecido dos cariocas, como que um pedaço de sol sobre os verdes azuis do Oceano, para lembrar a imagem colorida do poeta cearense Paula Ney. De Aracati.
Nem-queira-saber, Remadores, Democrata, Salinista, Centenário, todos nomes que invocavam, com sabor de sal e cheiro de maresia, a alma carnavalesca de Areia Branca na pessoa dos seus grandes foliões, Raimundo Nepomuceno, Zé Birunga, Zé de Frederico, que os mossoroenses chamavam de Nepó, porque era José Soares Nepomuceno, outros que deixo de citar para não incorrer em omissão, mais do que pelo limitado do espaço.
As músicas; pela sua identidade com o sentimento coletivo, ficaram na memória do nosso povo, e ainda se cantam. Com saudade. Músicas de Amaro e Zé de Frederico, de João Figueredo, outros tantos compositores do celeiro poético de Areia Branca. E relendo Eneida, meus olhos a reconstituírem os carnavais da Areia Branca antiga, dou comigo cantando baixinho essas músicas que o sentimento nunca esqueceu, nem haverá de esquecer.
Prof. Jose Nicodemos, Jornal DeFato de 31/01/2007

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